João tinha pouco mais de 1,60 de altura. Nem muito magro, nem muito gordo. Era um João, destes Joãos que todo mundo encontra por aí, no ponto de ônibus, no bar da esquina, no escritório, na vida.
João era solteiro. Não por opção, mas por falta. Seu primeiro beijo foi como o de todo mundo. Encantador no exercício presente da lembrança. Desastroso, porém, na prática. Imperdoável veia crítica. Perigosa essa coisa que João tinha.
João seguia pro trabalho todos os dias no mesmo horário. Era um emprego qualquer. Ele até pensou um dia que teria uma carreira, uma profissão que fosse sua cara. Mas como não conseguiu encontrar o que realmente pudesse chamar de sua cara, acabou aceitando a primeira oportunidade oferecida: escriturário de um escritório de advocacia.
Trabalhinho chato aquele que o João tinha. Mas fazer o quê? Pra quem não tinha lá muita qualidade pra nada, até que o empreguinho não era dos piores.
Todo dia era a mesma coisa. Os horários, as tarefas, as aporrinhações.
Do salário é melhor nem falar, mas não havia muito do quê reclamar. Escriturário, sem objetivo definido, entusiasmo especial nenhum com coisa alguma, burocrático por força do hábito. João até achava que tinha um salário condizente com seu perfil.
João tinha um ritual para o horário de almoço. Começava a ficar impaciente dez minutos antes do meio-dia. Quase se desesperava quando via que o relógio na parede do escritório parecia arrastar. Mas apesar dos pesares, o tal do meio-dia uma hora vinha.
E lá seguia João direto para o corredor, elevador, sétimo andar, térreo, “boa tarde”, roleta, rua.
Se você visse o João andando por aí, tenho certeza que não saberia quem era. Mas isso a gente já disse. João tinha pouco mais de 1,60 de altura, nem muito magro, nem muito gordo. Era um João, destes Joãos que todo mundo encontra por aí, no ponto de ônibus, no bar da esquina, no escritório, na vida.
O relógio batia meio-dia e quinze, e lá estava João na porta do Tavares, seu boteco do dia-a-dia. Sentava na última mesa do canto, lá no fundo, perto do banheiro, lugarzinho que todo mundo evita. Mas não o João.
Rita, a garçonete, vinha arrastando a sandália, cabelo despenteado, avental branco, saia azul-marinho, caneta no bolso, bloquinho na mão. Rita listava o especial do dia só por força do hábito. Ela sabia e João também o que vinha: “Me traz um arroz com feijão, bife e batata frita. E pra acompanhar, um copo d’água, sem gelo, com limão. Agradecido”.
No final, um café, dois reais de gorjeta, um sorriso, um acenar de cabeça: “Até logo, tenha um bom dia”.
E lá seguia João de volta para o escritório, entre os outros Joãos que a gente encontra por aí. Treze minutos depois, roleta, “boa tarde”, elevador, sétimo andar, corredor, de volta pra salinha.
As tardes de João eram como as manhãs. O que mudava era a posição do sol. Na saída, o mesmo ritual do almoço. Dezessete e cinqüenta. Arruma os papéis na mesa. Dezessete e cinqüenta e um. Fecha a gaveta, separa o dinheiro pro ônibus. Dezessete e dois. Encara o relógio e começa a resmungar baixinho. Dezessete e três. Confere mais uma vez o trocado na mão, olha pra gaveta, os papéis, encara mais uma vez o relógio. Dezessete e cinqüenta e oito, o resmungo já vira quase uma briga e os pés começam a se mexer descontroladamente de baixo da cadeira, com vontade de sair, como se João tivesse alguma coisa muito urgente pra resolver.
Dezoito horas. Finalmente. Corredor, elevador, sétimo andar, térreo, “boa noite”, roleta, rua. Se João não fosse o João, diria até que ele seguia satisfeito, mas satisfação não é uma palavra que combina com João.
Seguia rua abaixo, na direção do ponto de ônibus, como sempre fazia. Como já disse, João tinha pouco mais de 1,60 de altura, nem muito magro, nem muito gordo. Era um João destes Joãos que todo mundo encontra por aí, no ponto de ônibus, no bar da esquina, no escritório, na vida.
Solteiro não por opção, mas por falta, João entrava em casa por volta das sete da noite. Ligava a TV, ia pra cozinha, preparava uma comida, sentava no sofá, e ali ficava assistindo o jornal do dia.
Numa terça-feira qualquer João não foi trabalhar. O pessoal do escritório só foi se dar conta um dia depois. Levou uma semana pro chefe pedir pra alguém ligar pra casa do João pra saber o que tinha acontecido. Descobriu-se que ninguém tinha o telefone do João.
Algumas horas depois, graças ao excelente trabalho de Bernadete, a secretária, acharam sua ficha. João não tinha telefone. Rua dos Aimorés, 1777, quinto andar, apartamento 1772.
Bateram na porta, perguntaram aos vizinhos, ao porteiro, à mulher do zelador.
Anexado ao relatório da polícia, a análise do legista dizia que João tinha morrido há oito dias.
“Na sala, ao lado do corpo, foi encontrado um revólver, uma cápsula de bala e um bilhete: “A partir de hoje não estou mais só. Ela chegou”, dizia a repórter no noticiário da noite.
Rua da Bahia, 1237, décimo quinto andar, apartamento 12. Sentado no sofá, Odorico ouvia a notícia, entre uma garfada de arroz e um gole de cerveja.
Não sei se já contei pra vocês, mas Odorico tinha pouco mais de 1,60 de altura, nem muito magro, nem muito gordo. Era um Odorico destes Odoricos que todo mundo encontra por aí, no ponto de ônibus, no bar da esquina, no escritório, na vida.
sábado, 23 de junho de 2007
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